Dizem que foi um caldeirão fervendo cheio de batatas doce que derramou em sua perna.
O fato fez com que seu pé esquerdo ficasse todo deformado. Logo lhe apareceram as alcunhas : pé de tijolo, pé de bolão , pé de quenga...Seu nome era Antonio Barreto, a idade não se sabia ao certo, talvez 70 ou 73, não importava, nem ele mesmo não tinha conhecimento de quanto tempo vivera. De aspecto maltrapilho, cheirava mal, pois tinha aversão a água. Na família alguns loucos que se justificava pelo fato de sua falecida mãe ser prima legítima de seu pai.
Para despertar piedade, fazia ressaltar seu defeito friccionando um picolé de morango dos mais baratos nas feridas que cultivava em sua perna, principalmente, quando exercia o ofício de mendicante. Ai de quem lhe negasse uma esmola, logo rugia com uma série de maldições que incomodava as pessoas.
Era uma pessoa por demais conhecida no bairro. Ao transitar nas ruas os garotos o assediavam, bradando: Pé de Quenga, Pé de Quenga...
A resposta vinha de imediato: -É a mãe. E haja pedradas que nunca acertava os meninos, já que se divertiam a valer com a ira despertada no velho.
Quando o aroma que exalava alcançava níveis insuportáveis, papai costumava conduzí-lo até o chuveiro de nosso quintal, e sob a promessa de alguns trocados era convencido a tomar banho e vestir algo mais limpo sob os olhos atentos do fiscal.
Todo dinheiro arrecadado como pedinte ou como paga de algum favor prestado era muito bem guardado nos forros de suas calças especificamente costurados para esse fim, dinheiro que lhe servia para as despesa quando retornasse a sua terra natal no período dos festejos de Nossa Senhora de Santana.
Pé de quenga representava o pitoresco, suscitava atenção das pessoas. Adorava frequentar bares, mercearia, o mercado e as casa lhe davam guarida, especialmente, para fazer comentários e fofocas da vida do bairro.
Tinha convivido na casa de meu avô, e quando a família migrou para a capital veio como patrim6onio. Por isso era depositário de fatos jocosos da vida do campo que eram relembrados nos fervorosos colóquios que mantinha com meu pai.
Um desses, recordou o fato quando meu avô cultivava com muito cuidado uma bela melancia que estava reservada para uma data especial, tendo zelo de visitá-la todos os dias. Pé de quenga não resistindo a apetitosa fruta fez dela seu jantar. Quando o Sr, Augusto foi conferir sua cria, ficou enfurecido...Pé de Quenga que o acompanhava disse desconfiado: - Padim, isso foi coisa da raposa... E o velho: - que raposa que nada. Já viu raposa de dois pés?
Quem na infância não lembra de personagens como este que nos enriqueciam de impressões?